Saúde além da Covid-19: Sinais e sintomas a que e preciso estar atento

Saúde além da Covid-19: Sinais e sintomas a que e preciso estar atento

É importante que se continue a ir ao médico sempre que necessário apesar da pandemia de covid-19.

saude além do covid 

 

O cancelamento de consultas e exames foi uma das consequências da pandemia, mas o regresso à normalidade possível é importante. A médica Patrícia Maia realça a necessidade de se prestar atenção a alguns sintomas e procurar o médico sempre que se justifique.

Ainda que as consultas telefónicas ou por videochamada tenham sido adotadas em muitos serviços de saúde para evitar deslocações a hospitais, clínicas e centros de saúde, a verdade é que muitos foram os portugueses que deixaram de ir ao médico desde que a pandemia começou a ganhar relevo. Só no mês de março, a Entidade Reguladora da Saúde observou uma redução de 16% no número de consultas médicas hospitalares realizadas presencialmente no Serviço Nacional de Saúde em comparação com o mesmo período do ano passado.

Cenário idêntico verificou-se um pouco por todo o mundo, com a Organização Mundial da Saúde a concluir, após estudar o fenómeno da interrupção da prestação de cuidados em 155 países, que em cerca de metade foram adiados os rastreios oncológicos à população, 53% interromperam total ou parcialmente os serviços de tratamento da hipertensão arterial, 49% fizeram-no no que diz respeito ao tratamento da diabetes e complicações relacionadas, em 42% houve interrupção nos serviços oncológicos e em 31% dos casos foram afetadas as emergências cardiovasculares.

As consequências de tudo isto estão ainda por apurar, mas agora importa regressar à normalidade possível. Segundo a especialista Patrícia Maia, coordenadora da Unidade de Medicina Geral e Familiar (MGF) do Hospital Lusíadas, em Lisboa, “a população tem de continuar a ser muito sensibilizada sobre o quão fundamental é manter a sua vigilância médica habitual, mesmo em época de covid-19”.

Para tal, é também relevante compreender e desmistificar o medo que muitas pessoas passaram a sentir e que as está a impedir de procurar os cuidados de saúde de que necessitam: “O tomar consciência da dimensão desta pandemia e todas as restrições que foram sendo impostas, obviamente consciencializaram – ou deviam ter consciencializado – a população para as medidas de proteção a tomar, mas numa franja importante também criaram o medo e hoje sentimos que o medo impede parte da população de retomar a sua vigilância médica.”

Consequências dos adiamentos

De acordo com Patrícia Maia, muitas são as eventuais consequências dos cancelamentos e adiamentos de consultas e exames: “O constante adiar, seja por medo ou por dificuldade de acesso, garantidamente vai descontrolar doenças crónicas e dificultar diagnósticos precoces.” Concretamente, a médica prevê que “vamos ter uma população cada vez mais doente e um consequente aumento da mortalidade não covid”, ao mesmo tempo, acredita que “tenhamos mais perda de qualidade de vida e custos com a saúde acrescidos, com tratamentos mais prolongados, cirurgias mais complicadas e sequelas de doenças não controladas”. Como exemplo desta última situação, aponta “o AVC em pessoas com hipertensão não controlada, cancros diagnosticados em fases tardias e com menor probabilidade quer de sobrevida quer de qualidade de vida”.

Segundo a especialista, a situação é mais complexa do que parece, pois “não são só as consultas que estão a ser evitadas, mas também as urgências e quando os doentes recorrem a um serviço de urgência apresentam já quadros mais críticos, quer de doença aguda ou de doença crónica descompensada”.

Importante: cuide da sua saúde

Perante o contexto presente, que motiva grande preocupação, Patrícia Maia não hesita em sublinhar a importância de cada um zelar pela sua saúde, “mesmo em época de covid-19”, até porque os problemas de saúde não se limitam aos provocados pelo novo coronavírus. A especialista defende que “quem tem uma doença crónica e não é vigiado há mais de seis meses tem obrigatoriamente de regressar aos serviços de saúde, tem de ser proativo na sua saúde, sob pena de tardarmos com tratamentos e o tempo ser irreversível”.

Também no caso de “adultos aparentemente saudáveis, mas que não fazem nenhuma revisão há mais de um ano, estes devem ser incentivados a fazê-la, para seu próprio benefício e bem-estar”. Já no que diz respeito às crianças, a especialista confia que o problema possa não ser tão grave, tendo em conta que os intervalos de vigilância nestas faixas etárias são mais apertados, “havendo sempre uma preocupação acrescida por parte dos pais”.

Não esquecer a saúde mental

Outra dimensão destacada por Patrícia Maia prende-se com a saúde mental da população, num momento tão específico da nossa existência e em que tantas variáveis estão em constante mudança, muitas das quais contribuindo para um aumento generalizado da ansiedade. Nas suas palavras, merece atenção “o facto de vivermos uma época de grande instabilidade e de incógnita, que vai continuar a prolongar-se temporalmente criando grande instabilidade emocional”. Em concreto, a médica de MGF explica que “o isolamento social, a falta de afetos físicos, a falta de contacto humano, a falta de convívio com amigos e familiares, a ausência de partilha, o medo de ficar doente ou de ser transmissor de doença e os projetos de vida adiados originam problemas emocionais e psicológicos incalculáveis, traduzidos por tristeza, depressão, ansiedade, perturbações do sono, perturbações da nossa relação com a comida, nomeadamente através de excessos alimentares”. O risco que se corre é que “todas estas perturbações emocionais e psicológicas tendam a agravar doenças já existentes, bem como a fazer surgir novas doenças, como obesidade, hipertensão, diabetes, dependências medicamentosas, entre outras”.

Confiar e procurar cuidados

A necessidade de se continuar a zelar pela saúde de todos – sem focar apenas na infeção de covid-19 – é, pois, uma prioridade, com Patrícia Maia a sublinhar que “temos de prosseguir o nosso caminho com todas as precauções acrescidas, na certeza de que os prestadores de saúde querem uma população mais saudável e têm oferecido condições de segurança para que se retome a atividade clínica minimizando os riscos, não só para os doentes, mas também para todos os profissionais que mantêm o sistema a funcionar”.

A médica observa que “ainda há muito receio na procura dos cuidados de saúde, mas também ainda há muitos locais que não prestam cuidados presenciais em consultas”. Referindo-se à sua prática clínica diária, salienta que “a procura está a tender para níveis pré-pandemia, mas notando-se um misto de doentes habituais com novos doentes, estes pela dificuldade de chegarem ao contacto com o seu médico habitual”. No local onde trabalha, estão a ser mantidas “as várias vertentes de acesso à consulta de MGF – presencial, consulta telefónica e videoconsulta”, o que se justifica com o facto de ser importante “garantir a acessibilidade e perceber as necessidades de quem procura”.

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pelo Conselho Científico da AdvanceCare.

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