Covid-19 e as criança - afinal, quais são os riscos?

Importa conhecer os perigos associados à infeção das crianças com o novo coronavírus e saber que cuidados adotar nesta faixa etária.

 

A maior parte das crianças com covid-19 não apresenta sintomas ou desenvolve apenas doença ligeira, mas nalgumas – poucas – a situação pode tornar-se muito grave. A pediatra Margarida Lobo Antunes explica quais as que apresentam maior risco e como proceder perante uma suspeita.

Desde o início da pandemia de covid-19 que temos ouvido especialistas de todo o mundo, baseados em evidência que vai sendo produzida com grande rapidez, a descansar-nos quanto à gravidade daquela doença nos mais novos. A pediatra Margarida Lobo Antunes, diretora clínica do Hospital Lusíadas Lisboa, confirma e aponta estudos observacionais levados a cabo na cidade de Wuhan, na China, que comprovam isso mesmo: “Um desses estudos revelou que apenas 1,3% dos 72 314 doentes diagnosticados com covid-19 tinham idade inferior a 20 anos. Na China, mais de 90% das crianças com covid-19 eram assintomáticas e com doença ligeira a moderada.” A corroborar estes dados, lembra que “estudos realizados noutros países vieram comprovar que a percentagem de crianças infetadas era baixa, bem como a taxa de complicações”.

Ainda assim, há casos a merecer cuidados especiais e em relação aos quais é preciso estarmos todos atentos. Segundo a também cofundadora da Unidade de Pediatria do Hospital Lusíadas Lisboa, “existe um grupo de crianças para as quais a covid-19 pode ser um perigoso desafio, que são as que apresentam algumas doenças de base”. Contam-se aqui as crianças com doenças respiratórias graves, doenças cardíacas, insuficiência renal ou com algum tipo de compromisso ao nível do sistema imunitário.

 

Mesma doença, sintomas diferentes

É muito possível que uma criança infetada com o novo coronavírus não apresente quaisquer sintomas, mas quando estes surgem não são necessariamente idênticos aos apresentados pelos adultos. Ainda que um estudo tenha revelado que “73% das crianças com covid-19 apresentam sintomas de gripe com febre, tosse ou dificuldade respiratória, bem como dores musculares e dores de cabeça”, a especialista refere que “a febre é menos frequente nas crianças”. Por outro lado, e ao contrário dos adultos, “as crianças podem aparecer apenas com queixas gastrointestinais, como vómitos, náuseas e/ou diarreia e sem sintomas respiratórios”, o que nas palavras da médica “serve como um alerta”, tendo em conta que “nas crianças, a covid-19 pode ser mesmo diferente”.

Quanto à forma de lidar perante uma suspeita de infeção entre os mais pequenos, Margarida Lobo Antunes reforça que “é importante contactar a linha do SNS24 ou o médico assistente”, sendo que “as orientações vão depender do estado de saúde da criança, isto é, se tem ou não doença prévia, se coabita com pessoas de risco e quais são os sintomas”. Sobretudo, sublinha que “manter a calma é sempre o mais importante, bem como seguir as orientações fornecidas”. Além disso, relembra que “perante uma suspeição devem instituir-se imediatamente medidas de isolamento até que se obtenham orientações dadas por um profissional de saúde”.

 

Doença de Kawasaki e covid-19

Embora o cenário seja, em geral, bastante tranquilizador em relação às crianças com covid-19, a verdade é que, há uns meses, começou a surgir alguma informação a relacionar a infeção nesta faixa etária com a doença de Kawasaki, também designada por síndrome de choque da doença de Kawasaki. Segundo a médica, “a partir de março, vários pediatras, inicialmente na Europa e depois nos Estados Unidos da América, começaram a reportar casos de crianças internadas com febre e inflamação multissistémica, com algumas a apresentarem quadros graves com choque e falência multiorgânica, necessitando de internamento em unidades de cuidados intensivos pediátricos e partilhando semelhanças com a doença de Kawasaki”.

Como consequência, os especialistas passaram a prestar especial atenção ao que se designa por síndrome inflamatória multissistémica pediátrica (SIMP) associada à infeção pelo vírus SARS-CoV-2. Como o nome sugere, a SIMP constitui uma inflamação que se estende a múltiplos órgãos e sistemas, podendo atingir o coração, os pulmões, os rins, o cérebro, a pele, os olhos e o aparelho gastrointestinal. De acordo com a médica, os sintomas associados à SIMP podem incluir febre, dor abdominal, vómitos, diarreia, olhos vermelhos, rash cutâneo, prostração e cansaço. Quanto aos “sinais de alerta que devem motivar uma ida à urgência”, estes incluem “dificuldade respiratória, dor persistente ou pressão no peito, estado confusional, incapacidade de se manter acordado, coloração azulada dos lábios ou face, dor abdominal grave ou outros sinais preocupantes”.

Quanto à prevalência desta situação, a médica reforça que “apenas uma percentagem muito pequena de crianças, geralmente com doenças prévias, fica gravemente doente com covid-19, mas outra percentagem também muito pequena surge com SIMP semanas depois, apesar de terem tido poucos ou nenhuns sintomas de doença. Aliás, muitas das crianças com SIMP não tinham diagnóstico prévio de covid-19”.

 

Máscara e outros cuidados – como prevenir?

Uma das questões que mais dúvidas suscitam é a necessidade de utilização, ou não, de máscaras por crianças. Baseada nas recomendações atuais, Margarida Lobo Antunes esclarece que “todas as crianças acima dos 2 anos devem usar uma máscara que cubra o nariz e a boca quando estão na comunidade”, devendo estas ser “de pano e reutilizáveis ou cirúrgicas, desde que estejam bem adaptadas à cara da criança”. Abaixo dos 2 anos de idade, as máscaras não devem ser usadas “devido ao risco de sufoco”. Crianças com dificuldades respiratórias, incapacitadas ou incapazes de remover a máscara sem ajuda também não a devem usar.

Quanto aos cuidados necessários para garantir a segurança de todos, a médica aponta os que têm sido divulgados como essenciais, isto é, “baseados na etiqueta respiratória e na lavagem frequente das mãos e superfícies”. Tendo em conta o regresso às creches e infantários, a especialista salienta que “existe uma responsabilidade cívica de os pais avaliarem diariamente o estado de saúde dos seus filhos, bem como de todos os que coabitam com eles”. Tal “não passa apenas por verificar se a criança tem febre, mas sim ter em atenção outros sintomas, como tosse, ranho, diarreia ou simplesmente uma quebra do estado geral”, especifica, uma vez que “a covid-19 na idade pediátrica pode não se manifestar com febre, tosse e dificuldade respiratória”.

A médica vai mais longe e sublinha que, “neste momento, não é aceitável a prática comum de muitos pais de colocar o supositório de paracetamol porque a criança está febril e enviá-la na mesma para a creche”, reforçando que “perante qualquer contacto suspeito, deverá ser feito um encaminhamento, para evitar que a criança seja um foco de disseminação de doença”.

 

Segurança nas creches

Mas será que é mesmo seguro enviar as crianças para as escolas? Este é um dilema muito presente na vida de inúmeros pais atualmente. De acordo com a pediatra, “a maioria das creches está, de forma geral, bem organizada para receber as crianças em segurança”. Entre as diversas medidas adotadas, salienta que “não é permitida a entrada dos pais nem de fornecedores, para reduzir a exposição das pessoas, e muitas creches reforçaram medidas de controlo à entrada, como medição de temperatura para despistar possíveis crianças doentes”. Além disso, “muitos locais recomendam a troca de roupa e de calçado à entrada da creche e as turmas foram reorganizadas de forma a ter menos crianças em cada espaço físico, sobretudo nas horas de refeições, com horários desencontrados”.

Além disso, “a limitação dos brinquedos por cada criança e a desinfeção regular dos mesmos é mais uma forma de tentar tornar a vida na creche mais segura”, refere, mas salientando que “é melhor aceitar que é impossível restringir o contacto entre crianças pequenas, que querem mexer em tudo, partilhar brinquedos e tocar nos amigos”. Na sua perspetiva, “não será possível ensinar ou impor às crianças mais pequenas regras rígidas de distanciamento social”, recordando que “as creches foram sempre fontes de infeção, portanto, não é plausível pensar que isso não irá acontecer numa pandemia”. “O mais importante será uma vigilância apertada para detetar, tratar e isolar precocemente os casos suspeitos”, avisa, concluindo que “no regresso a casa, após o dia na creche, a criança irá tomar o seu banho e a vida continua. Não será necessário realizar outras medidas”.

Acima de tudo, a médica frisa que “é fundamental transmitir segurança e paz às crianças, bem como uma mensagem clara sobre as medidas de proteção”. “Não podemos viver num reino de medo, mas devemos ter cautela”, conclui.

 

Como ajudar as crianças a terem um dia a dia mais saudável

Segundo Margarida Lobo Antunes, “a covid-19 trouxe muitos desafios a nível mundial em relação às crianças, tanto em contexto familiar como escolar”, mas no seu entender há várias medidas que podemos pôr em prática para as ajudar neste momento:

  • Reforçar as medidas de higiene das mãos e ensinar-lhes a correta etiqueta respiratória;
  • Promover o exercício físico e tentar, sempre que possível, fazer atividades ao ar livre em segurança. Tal é necessário até para garantir os níveis de vitamina D;
  • Propor às crianças que seguem as aulas em casa a realização de pequenas pausas para a prática de exercícios físicos simples. Tal contribui para um estilo de vida mais saudável, controlar o peso e aumentar a concentração;
  • Ajudar as crianças a manter contacto com familiares e amigos próximos. Se não for possível com presença física, recorrer à tecnologia;
  • Prestar atenção a eventuais sintomas de stress e ansiedade resultantes da situação, e que se podem revelar através de preocupação ou tristeza excessivas, hábitos irregulares de alimentação e/ou sono, bem como dificuldade em manter a atenção.

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