Mononucleose: a doença do beijo que se transmite pela saliva

Mononucleose: a doença do beijo que se transmite pela saliva

Como se transmite, trata e previne a mononucleose infeciosa, também conhecida como a doença do beijo. Geralmente benigna, esta doença afeta sobretudo crianças e jovens.


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Chama-se mononucleose infeciosa, mas é também conhecida como a doença do beijo. Os sintomas variam conforme a idade, pelo que o diagnóstico pode ser um desafio. As médicas Ana Serrão Neto e Margarida Dias esclarecem todas as dúvidas.

Chamam-lhe a doença do beijo porque a transmissão é feita pela saliva ou por gotículas nasais, mas a verdade é que os beijos não são a única forma de contágio. Aliás, sabe-se que cerca de 90% das crianças até aos 5 anos de idade têm contacto com o vírus que a provoca – por exemplo, através de brinquedos ou lápis que levam à boca, talheres ou escovas de dentes – embora a esmagadora maioria não tenha sinais da doença. Na verdade, apenas 5% acabam por desenvolver sintomas, sendo que as restantes vão criar anticorpos em relação ao vírus, ganhando resistência a possíveis infeções futuras.
Embora toda a gente possa ser infetada pelo vírus Epstein-Barr – que é o responsável pela mononucleose infeciosa (MNI) –, há grupos etários mais suscetíveis do que outros. De acordo com Ana Serrão Neto, coordenadora do Centro da Criança e do Adolescente do Hospital CUF Descobertas, em Lisboa, “as crianças estão mais expostas, no sentido em que trocam brinquedos e chuchas. É, pois, natural a troca de saliva nestes objetos, sendo impossível as educadoras estarem sempre a vigiar todos os movimentos das crianças.”
Mas a MNI não é exclusiva da infância. Margarida Dias, coordenadora de Medicina Geral e Familiar também no Hospital CUF Descobertas, salienta que esta doença “no nosso país tende a ser diagnosticada sobretudo nos adolescentes e no jovem adulto, altura em que tende a ser reconhecida, por ser habitualmente mais sintomática”. “Os jovens costumam contrair a mononucleose infeciosa pelo beijo ou contacto íntimo com alguém infetado, daí a designação de doença do beijo”, justifica.


Quando suspeitar?

Depende também da idade em que se dá o contágio a forma como a doença se manifesta, já que os sintomas podem variar. Segundo Margarida Dias, “a idade influencia muito a apresentação clínica”, sendo que “nas crianças pequenas pode ser assintomática ou causar apenas uma ligeira inflamação da orofaringe, enquanto nas pessoas mais velhas a doença apresenta-se frequentemente com dor de garganta intensa, febre e gânglios aumentados e sensíveis ao toque do pescoço”.
É também entre os jovens e adultos que se manifestam algumas queixas gerais “muitas vezes significativas, como fadiga e falta de apetite, dores nas articulações, tosse e dor de cabeça”, afirma a especialista, lembrando que “numa percentagem pequena de casos pode haver desconforto ou dor abdominal por aumento do tamanho do baço, do fígado ou de ambos”.


Diagnóstico nas crianças

Habitualmente a levar brinquedos à boca e a espalhar saliva por todo o lado, é compreensível que os mais pequenos sejam alvos fáceis da MNI. Ana Serrão Neto explica que nesta idade a doença “manifesta-se frequentemente por febre alta de início súbito, mas mais prolongada do que o habitual nas doenças agudas – cerca de oito a dez dias – e que cede apenas parcialmente aos antipiréticos”. De acordo com a pediatra, “esta síndrome febril é acompanhada de falta de forças, alguma prostração e dores musculares, tal como numa gripe”. Em geral, “é comum o diagnóstico de amigdalite bacteriana, pois as amígdalas estão inflamadas e apresentam um exsudado purulento, pelo que o médico prescreve o antibiótico recomendado nestas situações, a amoxicilina”. Porém, este pode não ser o diagnóstico correto. A indicação de que se pode estar perante a doença do beijo chega quando “a febre não passa e a criança não melhora”, esclarece. Nessa altura – e apenas nessa altura –, são pedidas análises laboratoriais para confirmação. Porque é que não se fazem antes? “Porque o pediatra só deve sujeitar uma criança a ser picada quando entende que pode haver utilidade para o diagnóstico. E numa amigdalite com aspeto banal e com cerca de três a quatro dias de febre não há indicação para análises”, justifica.
Outra pista útil para que o clínico suspeite de MNI é quando, após a prescrição de amoxicilina, surge um exantema, ou seja, “pequenas manchas avermelhadas, dispersas por todo o corpo e com pouco relevo”.
Quanto às análises mais adequadas para validar o diagnóstico, Ana Serrão Neto aponta o hemograma, provas de função hepática e o anticorpo específico da MNI. Todavia, este último “é sobretudo útil nas crianças mais velhas, pois nas mais pequenas há com frequência resultados falsos negativos”, realça.


Doença benigna e breve

A MNI é, na maioria das vezes, uma doença benigna e com duração breve. “A maioria das pessoas recupera totalmente em poucas semanas”, explica Margarida Dias, sendo que as crianças mais pequenas recuperam, em regra, mais rapidamente. Em menos de duas semanas estas costumam estar completamente bem, já os adolescentes com sintomas de fadiga podem demorar cerca de um mês a recuperar.
Em casos raros, a MNI pode ter algumas complicações, como a baixa de plaquetas, insuficiência renal ou alterações neurológicas mais sérias. Mas porque estes casos são mesmo muito pouco frequentes, Ana Serrão Neto diz que costuma “aconselhar sempre os pais a não irem à Internet para não se assustarem”.
A complicação mais frequente é a síndrome de fadiga crónica e ocorre nos adolescentes. “Nesta idade, é relativamente comum perdurar durante algumas semanas uma fadiga relativamente acentuada, mas que, por exemplo, não impede a frequência das aulas, mas somente a prática de exercício físico”, salienta a pediatra.


Tratamento das queixas

“Não existe tratamento farmacológico específico para o vírus, pelo que as medidas são sintomáticas, e dirigidas às queixas”, explica Margarida Dias, referindo que tal “pode implicar a toma de analgésicos ou anti-inflamatórios, além da recomendação para repouso ou, pelo menos, da pausa de atividade física mais intensa”.
Apenas “nas situações mais severas pode haver necessidade de hospitalizar a criança ou o jovem para hidratação endovenosa, repouso no leito e administração de outros fármacos personalizados”, complementa Ana Serrão Neto.


Como prevenir?

  • Evitar o contacto com as secreções orais e nasais da pessoa infetada;
  • Lavagem cuidadosa das mãos;
  • Separação de brinquedos e chuchas;
  • Não misturar escovas de dentes;
  • Não partilhar talheres ou copos.

Sabia que…

  • O período de incubação do vírus pode ser de 30 dias;
  • O vírus Epstein-Barr é da família do agente do herpes;
  • Não há vacinas nem fármacos preventivos para a MNI;
  • O Dia do Beijo é comemorado todos os anos no dia 13 de abril.

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