Tiroide: uma glândula, vários problemas

Tiroide: uma glândula, vários problemas

Dados da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, divulgados em maio de 2017 no âmbito do Congresso Europeu de Endocrinologia, que decorreu em Lisboa, apontam para que as doenças da tiroide afetem cerca de um milhão de portugueses.


tiroide



A glândula do metabolismo

Para perceber melhor quais são os principais problemas da tiroide, importa começar por saber que se trata de uma glândula, em forma de borboleta, localizada na base do pescoço, junto ao que designamos como maçã de Adão. Ela é responsável pela produção de duas hormonas – a triodotironina e a tiroxina, conhecidas como T3 e T4, respetivamente. São estas hormonas que controlam o metabolismo do corpo, isto é, o modo como armazena e gasta energia. São, pois, essenciais para o funcionamento dos tecidos e órgãos.


Uma questão de equilíbrio

Para que tudo corra bem é necessário que haja um equilíbrio na produção das duas hormonas. A mais ativa é a T3, o que significa que tem um papel maior na aceleração dos processos metabólicos. Já o papel da T4 é menor, sendo que se converte no fígado na T3.
Neste mecanismo está envolvida uma terceira hormona – a TSH, sigla em inglês para a designação “hormona estimulante da tiroide”. Esta hormona é fabricada pela hipófise, uma glândula existente na base do cérebro. O que é acontece é que quando a produção hormonal da tiroide diminui, dá-se uma aceleração na libertação da TSH. O contrário acontece quando há maior produção de T3 e T4, ou seja, é libertada menos TSH. É desta forma que o próprio organismo procura controlar o funcionamento da tiroide e, com ele, o adequado mecanismo do corpo.


Uma borboleta com problemas

Porém, nem sempre é possível este equilíbrio. Por dois grandes grupos de razões: ou porque a tiroide funciona mal, produzindo em excesso ou em défice, situações em que falamos, respetivamente, de hipertiroidismo e de hipotiroidismo, ou porque cresce de forma desordenada, podendo surgir nódulos ou mesmo tumores.


Hipotiroidismo: quando a T3 e T4 faltam

Quando há escassez de hormonas da tiroide em circulação no sangue, fala-se em hipotiroidismo. Esta é uma situação que tende a instalar-se lentamente, evoluindo com o tempo ao longo dos anos, com manifestações iniciais ligeiras de que o doente não se apercebe ou, pelo menos, não valoriza. São sinais como fadiga, maior sensibilidade ao frio, prisão de ventre, pele seca, aumento de peso, fraqueza muscular, dor e inchaço nas articulações, alterações menstruais e diminuição da frequência cardíaca, bem como tendência para um estado depressivo.
A insuficiente produção destas hormonas pode ficar a dever-se a vários fatores, entre eles uma doença autoimune designada por tiroidite de Hashimoto, que leva o organismo a produzir anticorpos que combatem a T3 e a T4. Mas também pode dever-se a radioterapia, à toma de determinados medicamentos como o lítio (usado no tratamento de algumas doenças do foro psiquiátrico), bem como a cirurgias prévias à tiroide ou ao tratamento do hipertiroidismo (situação limite em que os fármacos geram uma baixa permanente da produção hormonal). 
Menos frequente, mas possível, é o hipotiroidismo ser congénito (isto é, estar presente à nascença) ou estar relacionado com uma desordem da hipófise ou com deficiência em iodo. Pode ser ainda um problema temporário associado à gravidez.
Qualquer pessoa pode sofrer de hipotiroidismo, mas é mais comum nas mulheres acima dos 60 anos, em pessoas com história familiar de problemas da tiroide ou com doenças autoimunes como a artrite reumatoide ou o lúpus.
Sendo uma doença que se desenvolve lentamente, é essencial não desvalorizar os sintomas. Porque, se não tratada, pode ter como complicação problemas do foro cardíaco, uma vez que a deficiente produção hormonal gera níveis elevados do chamado “mau” colesterol (LDL). Mas também depressão e infertilidade (os baixos níveis hormonais podem interferir com a ovulação).
O diagnóstico envolve uma análise ao sangue, para medir os valores da T4 e da TSH: quando o nível de T4 é baixo e o de TSH elevado, confirma-se o hipotiroidismo. O passo seguinte é, naturalmente, o tratamento, que implica medicação oral, à base de hormonas da tiroide sintéticas, para restaurar os níveis hormonais e, assim, iniciar a reversão dos sintomas. Este é, quase sempre, um tratamento para a vida, embora a dosagem vá sendo avaliada e ajustada.


Hipertiroidismo: quando a tiroide é demasiado ativa

Se a tiroide está demasiado ativa, isso significa que produz excesso de hormonas e, portanto, que os níveis em circulação também são excessivos. O resultado é uma aceleração do metabolismo, causando uma mão cheia de sintomas que refletem o elevado desgaste de energia. Assim, há perda súbita de peso, mesmo quando o apetite e a quantidade de alimentos ingerida se mantêm; alteração dos batimentos cardíacos, que se tornam mais rápidos (taquicardia) ou irregulares (arritmia). Mas também maior nervosismo e irritabilidade, maior sensibilidade ao calor e transpiração, alterações menstruais e a nível do funcionamento do intestino (fezes mais moles e evacuações mais frequentes), fadiga, dificuldade em dormir, cabelo quebradiço e pele mais fina. E ainda alargamento da tiroide, manifestada através de um inchaço na base do pescoço.
Na origem desta hiperatividade da tiroide pode estar um conjunto de patologias, nomeadamente autoimunes, de que é exemplo a doença de Graves, em que os anticorpos estimulam a produção de T4. Podem estar também nódulos, como o chamado adenoma tóxico, ou a tiroidite, situação que se caracteriza por uma inflamação da glândula sem causa aparente.
Mais comum nas mulheres do que nos homens, o hipertiroidismo tende a ser hereditário, pelo que, havendo familiares com a doença, é importante fazer o despiste o mais precocemente possível. Desta forma, podem prevenir-se complicações como problemas cardíacos ou osteoporose, entre outras.
Tal como no hipotiroidismo, o diagnóstico envolve uma análise sanguínea para deteção dos níveis de T4 e de THS: valores elevados de T4 e valores baixos ou mesmo ausência de THS confirmam a doença.
Quanto ao tratamento, é adequado a cada doente, fazendo-se à base de medicamentos que controlam a produção hormonal e, se necessário, de iodo radioativo, de modo a diminuir o tamanho da glândula.


Dos nódulos ao cancro

Outra vertente das doenças da tiroide prende-se com a formação de nódulos. Nem sempre têm significado clínico, embora devam sempre ser vigiados. A partir de um centímetro, devem mesmo suscitar acompanhamento por um endocrinologista: é que o cancro da tiroide pode começar como um nódulo.
Mas o que são nódulos? São como que pequenas bolsas, sólidas ou cheias de líquido, que se formam, neste caso, na tiroide. A maioria passa despercebida, mas alguns crescem ao ponto de serem sentidos e vistos (uma pequena elevação na base do pescoço), que pode pressionar a traqueia ou o esófago e causar dificuldades na respiração ou na deglutição. Nalguns casos, os nódulos produzem excesso de T4, o que gera sintomas associados ao hipertiroidismo como perda de peso ou alterações no ritmo cardíaco.
Na sua origem pode estar um desenvolvimento anormal do tecido glandular, uma deficiência em iodo ou inflamação da tiroide. A maioria são benignos, sendo que uns poucos são cancerígenos. Daí a atenção que deve ser dada aos sintomas. No primeiro caso, o tratamento envolve vigilância e, eventualmente, a toma de medicamentos que reduzam a produção hormonal, prevenindo o hipertiroidismo. Se houver dúvidas sobre a natureza do nódulo, pode ser recomendada a remoção. A cirurgia é igualmente uma alternativa terapêutica quando o nódulo é maligno, podendo, ou não, implicar remoção do tecido da própria tiroide.
A prática clinica aponta para um bom prognóstico na grande maioria dos casos. O que é essencial, sempre, é não desvalorizar os sinais.

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