Pernas inquietas podem ser sintoma de doença grave, mas tratável

A síndrome das pernas inquietas afeta a qualidade de vida de quem dela sofre ao prejudicar gravemente o sono. A boa notícia é que tem tratamento.


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O nome pode levar a que muitos a desvalorizem, mas quem tem síndrome das pernas inquietas convive de perto com uma doença que põe em causa a sua qualidade de vida. Se não for corretamente diagnosticada e tratada arrasta-se durante anos, levando consigo a saúde de quem dela sofre.

Imagine que todas as noites, quando se prepara para dormir, começa a sentir nas pernas uma forte dormência, um intenso ardor ou formigueiro, sendo que este incómodo só passa depois de as mexer. Como é fácil de compreender, estes sintomas ao longo de uma noite – e de muitas noites durante uma vida – acabam por ter um efeito devastador em quem padece desta doença. A 23 de setembro assinala-se o Dia da Síndrome das Pernas Inquietas e a data serve para sensibilizar a comunidade médica e a população em geral para uma patologia ainda pouco conhecida.

De acordo com Joaquim Ferreira, professor de Neurologia e Farmacologia Clínica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e investigador no Instituto de Medicina Molecular, em causa está “uma doença neurológica crónica” e sobre a qual ainda não se sabe muito. Por exemplo, “desconhece-se porque é que algumas pessoas a desenvolvem e outras não”. Em relação aos sintomas, refere que se trata de “um quadro clínico caracterizado por um desconforto inespecífico nas pernas”. Desde logo, “o desconforto pode ter várias características, podendo ser uma dormência, um ardor ou um formigueiro incómodo, que se faz sentir predominantemente à noite e quando as pessoas se deitam, ou seja, sobretudo quando as pernas estão em repouso e num ambiente contido”. Além disso, “quando as pessoas se levantam e andam, esse desconforto tende a desaparecer”, explica o também diretor clínico do Campus Neurológico Sénior, em Torres Vedras e Lisboa.


Doença muito frequente

Segundo o especialista, esta “é uma doença muito frequente na população em geral, encontrando-se subdiagnosticada”. Isto significa que “muitas pessoas têm a doença sem saber, podendo andar durante anos com diagnósticos diferentes e a serem seguidas em especialidades que não a sabem diagnosticar”.

Embora não exista informação acerca da prevalência em Portugal, podemos recorrer aos dados disponíveis para países vizinhos, como Espanha ou França. De acordo com Joaquim Ferreira, os números sugerem que provavelmente cerca de 10%, ou mais, da população tenha síndrome das pernas inquietas. Extrapolando para a população portuguesa, “significaria que um milhão, ou mais, de portugueses sofreria desta doença”, contabiliza. Ainda assim, o médico deixa claro que “não há um milhão de portugueses com síndrome das pernas inquietas grave a ponto de se justificar a ida ao médico e respetivo tratamento”. Antes acredita que tal situação ocorrerá em 1% a 1,5% da população portuguesa. “Mas mesmo que seja 1%, tal corresponderia a 100 mil pessoas, o que já seria um número muito elevado”, acrescenta.

Mas, afinal, se estes doentes não se encontram diagnosticados, onde andam e em que especialidades estão a ser seguidos? Esta pergunta tem sido feita por diversos investigadores e as respostas revelam bem o desnorte e a falta de apoio que muitos sentem, alguns ao longo de anos. Baseado em pesquisas feitas noutros países, Joaquim Ferreira revela que antes de a síndrome das pernas inquietas lhes ser diagnosticada é frequente que “sejam detetadas varizes nos membros inferiores e por isso sejam seguidos por cirurgiões vasculares; ou há uma dor que estará relacionada com uma hérnia discal e frequentemente são tratados por ortopedistas ou neurocirurgiões, e alguns são até operados à coluna de forma a melhorar esta queixa; há ainda um grupo de doentes com diagnóstico de fibromialgia, os quais são seguidos pelos médicos de família ou por reumatologistas”.


Qualidade de vida muito prejudicada

Escusado será dizer que, sem diagnóstico correto e tratamento adequado, a qualidade de vida destas pessoas é profundamente afetada. “Pode ser extremamente grave, ou seja, o desconforto pode ser tão grande que há pessoas que passam décadas com noites horríveis e sem terem um diagnóstico formal”. O impacto dá-se sobretudo ao nível da qualidade do sono, já que este apresenta um padrão “muito fragmentado”, esclarece o especialista. “As pessoas não conseguem descansar e passam as noites acordadas, levantadas ou noutras posições”, sublinha, reforçando que “os sintomas surgem antes de adormecer”. Por esta razão, as consequências da doença fazem-se sentir “durante a noite, porque não dormem, e também no dia seguinte, devido à grande sonolência, cansaço e exaustão”, reforça.

Entre as pessoas que sofrem desta patologia não são poucas as que “desenvolvem quadros de ansiedade e depressão como consequência do desconforto da doença”, esclarece o neurologista. Isto mesmo foi corroborado recentemente num estudo levado a cabo por investigadores da Universidade da Pensilvânia, EUA, segundo o qual indivíduos com síndrome das pernas inquietas apresentam quase três vezes mais risco de suicídio ou de automutilação do que os que não têm aquela doença.

A piorar a situação está o facto de “os médicos tenderem a desvalorizar a situação, porque não sabem o que é, o que torna tudo mais angustiante”. “O próprio nome acaba por levar à desvalorização da doença”, constata, reforçando que “algumas pessoas chegam à consulta muito mal”.


Quem é mais afetado?

A síndrome das pernas inquietas afeta igualmente homens e mulheres, mas as formas moderadas a graves são mais frequentes no sexo feminino. A doença começa a manifestar-se na fase de adulto jovem, tendendo a aumentar ligeiramente o desconforto com a idade. Todavia, a evolução “é muito variável de pessoa para pessoa”.

Embora não haja nenhum gene associado a esta síndrome, verifica-se uma tendência familiar para o seu desenvolvimento. Isto significa que é comum que quem sofre desta patologia tenha alguém na família com o mesmo problema. Por outro lado, há também quem desenvolva esta doença como consequência de outras situações, nomeadamente, gravidez, alterações neurológicas dos nervos periféricos (neuropatias), anemia, alterações renais e como efeito secundário de determinados medicamentos.


Como prevenir?

Em relação às formas primárias da síndrome das pernas inquietas, isto é, as que não têm uma causa identificada, “não há nenhum tipo de prevenção possível”. Já no que diz respeito às formas secundárias, ou seja, as que resultam de outras situações, Joaquim Ferreira realça a necessidade de “os médicos estarem atentos ao facto de alguns medicamentos poderem dar origem a este tipo de sintomas e, se isso acontecer, alterarem a medicação”.


Tratamento com enorme eficácia

A boa notícia é que esta doença tem tratamento e, quando são usados os medicamentos adequados, “a melhoria é enorme e o grau de satisfação dos doentes também”. O especialista destaca que “alguns destes fármacos são também usados no tratamento da doença de Parkinson, mas as patologias não estão relacionadas, é só mesmo a coincidência de o mesmo composto melhorar as duas doenças”.

Ainda que sejam extremamente eficazes, os fármacos disponíveis “apenas melhoram os sintomas, ou seja, não fazem a doença desaparecer, pois não há cura conhecida”. Todavia, “para os doentes é quase como se renascessem, porque de repente passam a dormir noites seguidas, o que para eles é algo indescritível”.

Para fazer o diagnóstico, Joaquim Ferreira refere que “basta o interrogatório do médico, saber reconhecer os sintomas e observar o doente, não sendo preciso nenhum exame clínico”.


Será que sofre de síndrome das pernas inquietas?

Devido à necessidade de movimentar as pernas com frequência, algumas tarefas tornam-se quase impossíveis. Entre as pessoas com síndrome das pernas inquietas encontram-se as que:

  • Têm dificuldade em fazer longas viagens;
  • Nos aviões, passam o tempo todo a andar no corredor;
  • No cinema ou noutros espetáculos, ficam no corredor por forma a poderem ir cruzando as pernas sem incomodar quem está ao lado;
  • Assim que se deitam, sentem uma necessidade indescritível de mexer as pernas – desconforto que é descrito com frequência como “alfinetadas”, “comichão no interior das pernas” ou “pernas que se querem mexer sozinhas”. O incómodo só passa depois de se movimentar as pernas.

Sabia que…

Dia 23 de setembro é a data escolhida para assinalar o Dia da Síndrome das Pernas Inquietas, porque foi neste dia que nasceu, em 1907, Karl-Axel Ekbom, o neurologista sueco a quem se deve a primeira descrição clínica detalhada desta doença, em 1945. Por esta razão, a patologia é também designada por doença de Willis-Ekbom.

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