Tratar a covid-19 em casa – o que fazer?

Tratar a covid-19 em casa – o que fazer?

Com o aumento exponencial de casos de pessoas infetadas pelo SARS-CoV-2, e porque a maioria das situações é tratada em casa, importa saber como proceder. A médica Patrícia Maia esclarece sobre tudo o que deve ser tido em conta, desde os sintomas a avaliar até ao tratamento mais adequado.



Sabe-se que a maior parte das pessoas que apresenta um teste positivo para o SARS-CoV-2 tem sintomas com pouca gravidade ou até nem desenvolve quaisquer sintomas e apenas uma pequena percentagem carece de tratamento especializado com internamento hospitalar. Sendo assim, é em casa que decorre o tratamento da maioria dos casos de covid-19. Porém, muitas são as dúvidas que surgem a quem se vê nesta situação, tanto da parte de quem está infetado como de quem se encontra na posição de cuidador.

Segundo a médica Patrícia Maia, coordenadora da Unidade de Medicina Geral e Familiar do Hospital Lusíadas, em Lisboa, há vários cuidados que devem ser mantidos nesta situação. Isto porque, “mesmo sem sintomas, quem recebe um resultado positivo tem de se comportar como um doente com covid-19, já que pode começar assintomático, mas isso não invalida que os sintomas possam surgir; além de que é um veículo de transmissão à restante população”.

Desde logo, a especialista sublinha que “é fundamental o isolamento total e imediato”. Para tal, há que “escolher uma divisão da casa onde a pessoa possa permanecer isolada da restante família durante 24 horas por dia ao longo de todo o tempo de isolamento, de preferência com uso individual de casa de banho”. Uma vez que nem todas as casas permitem esta capacidade de isolamento, a médica lembra que “sempre que seja estritamente necessário o uso de partes comuns, todos os coabitantes devem usar máscara, manter as regras de etiqueta respiratória e distanciamento, ter o cuidado da higienização muito frequente das mãos e de todas as superfícies”. Além disso, “quando possível e ainda em relação a conviventes, se há partilha de habitação com idosos, grávidas, recém-nascidos ou doentes com comorbilidades, estes devem ser deslocados para outra habitação”. É preciso ter presente que “quando se identifica não haver condições de habitabilidade ou de isolamento, há o devido encaminhamento para estruturas residenciais alternativas”.

Por outro lado, Patrícia Maia chama a atenção para a importância de se contactar a linha SNS 24 com vários objetivos: “Garantir que o resultado do teste é notificado na plataforma médica SINAVE; permitir a vigilância do estado de saúde e eventual encaminhamento para áreas dedicadas; programar o tempo de isolamento e emissão de declaração para a entidade patronal.”

Por fim, a médica destaca a necessidade de se fazer uma “revisão sistematizada de todos os contactos de alto risco nos últimos 14 dias e comunicar aos mesmos a necessidade de vigilância e isolamento profilático”. Em relação a este ponto, a especialista reforça que “os familiares conviventes no domicílio, bem como os contactos de alto risco nos últimos 14 dias, devem ser identificados aquando da ligação para a linha SNS 24”. “Devem ficar em isolamento profilático e também desde logo ficam em vigilância em relação ao aparecimento de sintomas da doença, além de que deverá ser programada a realização de teste molecular.”

 

Que teste fazer?

Uma das dúvidas mais frequentes prende-se com o tipo de teste que deve ser feito para detetar a presença do SARS-CoV-2. Patrícia Maia esclarece a diferença entre cada um, lembrando que atualmente estão disponíveis em Portugal três tipos de testes, cada qual com finalidades diferentes:

Testes moleculares – São os testes de referência para o diagnóstico e rastreio da doença causada pelo SARS-CoV-2. Neste tipo de testes está incluído o vulgarmente denominado teste PCR. São testes cujo resultado pode demorar até 24 horas a ser conhecido. Podem ser aplicados a pessoas assintomáticas, nomeadamente a contactos de risco elevado.

Testes rápidos de antigénio – São os ditos testes de proximidade, que devem ser utilizados como recurso quando os testes moleculares não estão disponíveis em tempo útil para o diagnóstico e rastreio. Para diminuir a probabilidade de falsos negativos, devem ser realizados nos primeiros cinco dias de doença. Caso se obtenha um resultado negativo num teste rápido, mas com suspeita de infeção, deve ser realizado de seguida um teste molecular. O resultado do teste rápido é obtido 15 a 30 minutos após a realização. Pela sua rapidez, estes são os eleitos para situações de surtos, quando se pretende agilizar uma intervenção rápida e em situações de urgência social.

Testes serológicos – Têm a finalidade de avaliar a resposta imunológica à infeção por SARS-CoV-2 e são utilizados em estudos epidemiológicos.

 

Sintomas a que é preciso prestar atenção

Sempre que a infeção se apresenta com sintomas ligeiros, o tratamento deverá ser dirigido especificamente para o seu alívio, o que poderá passar, segundo Patrícia Maia, por medicamentos para a febre ou analgésicos para as dores musculares intensas e dores de cabeça.

Ainda assim, a médica realça que quando um doente com covid-19 está em recuperação no domicílio, “devem ser identificados antecedentes que alertem para uma eventual evolução mais grave da doença, por exemplo, idade superior a 60 anos, doenças crónicas como diabetesasma, DPOC, insuficiência cardíaca, doença renal crónica em hemodiálise, obesidade, imunodeprimidos, doentes neoplásicos sob radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia”. “Estes doentes devem ser observados não apenas no domicílio, mas também em centros referenciados e com profissionais dedicados”, sublinha.

Da mesma forma, “os doentes com covid-19 devem estar sensibilizados para os sinais e sintomas desta doença, nomeadamente para o surgimento de febre, aparecimento ou modificação do padrão habitual de tosse, dificuldade respiratória, alterações do olfato e/ou do paladar, alterações gastrointestinais, cefaleias, dores musculares, entre outros”. A médica lembra que “no domicílio é importante garantir que os doentes têm facilidade em estabelecer contacto telefónico imediato sempre que identifiquem sinais de alarme”.

 

Como avaliar sintomas no domicílio?

Considerando que a missão dos médicos deve ser também educativa, Patrícia Maia defende que cabe a estes profissionais de saúde “reforçar a importância de avaliar alguns parâmetros no domicílio”, tais como:

Temperatura corporal – É importante medir a temperatura, sabendo que “uma temperatura superior a 38 °C persistente por mais de 48 horas ou o seu reaparecimento, assim como uma temperatura inferior a 35 °C, são sinais de alerta”.

Quantidade de oxigénio no sangue – Monitorizar a quantidade de oxigénio que está a ser transportado no sangue pode ser relevante no tratamento da covid-19 e tal é possível através de um oxímetro, um pequeno aparelho que permite fazer essa medição com facilidade. Recentemente, a Organização Mundial da Saúde recomendou, sempre que possível, ter um dispositivo destes no domicílio para monitorizar doentes com covid-19 ligeira ou com persistência de sintomas pós-covid. Consideram-se normais os valores iguais ou superiores a 95% em doentes sem doença pulmonar prévia. O sinal de alerta surge quando os valores são inferiores a 90%. De acordo com Patrícia Maia, “é importante sensibilizar e ensinar a população para fazer um uso correto do oxímetro, explicando que algumas condições podem determinar uma leitura incorreta, com saturações inferiores às reais, nomeadamente má perfusão periférica, hipotermia, desidratação ou uso de verniz/esmalte nas unhas”.

Respiração – É conveniente que os doentes saibam identificar estados de dificuldade respiratória e de aumento de ciclos respiratórios por minuto, devendo ser “ensinados a contabilizar”.

Alterações gastrointestinais – Os doentes devem saber que é possível que surjam alterações gastrointestinais, nomeadamente vómitos e diarreia, as quais devem ser quantificadas, com alerta para estados de desidratação grave.

Alterações do estado de consciência – Os familiares, conviventes ou cuidadores devem prestar atenção ao aparecimento de alterações do estado de consciência dos doentes com covid-19, como confusão mental ou agitação, entre outras.

 

Quanto tempo demora a passar?

Segundo a médica, “quando temos uma evolução de doença ligeira a moderada, o isolamento será de dez dias, a contar do início dos sintomas, sem necessidade de realização de teste laboratorial, desde que haja melhoria clínica e ausência de febre durante três dias consecutivos”. Por outro lado, “quando temos uma evolução de doença grave ou crítica, o isolamento será de 20 dias” desde o início dos sintomas. Também nesta situação, ao fim daquele prazo não há necessidade de realização de teste laboratorial, desde que haja melhoria clínica e ausência de febre durante três dias seguidos. Quanto aos assintomáticos, estes “devem ficar em isolamento durante dez dias após a realização do teste laboratorial que determinou o diagnóstico”.

 

Síndrome pós-covid – o que o futuro nos reserva

Muitas são ainda as incertezas em relação à covid-19 e uma delas prende-se com a designada síndrome pós-covid, pelo que, nas palavras de Patrícia Maia, permanece “a incógnita em relação a quanto tempo dura esta doença”. Síndrome pós-covid é o nome que tem sido dado ao conjunto de sintomas que atingem vários órgãos e sistemas do nosso organismo depois do desaparecimento da infeção, que pode ser extremamente incapacitante. Esta síndrome “apresenta manifestações variáveis, nomeadamente fadiga extrema, cansaço respiratório ou cardíaco, arritmias, desequilíbrio na marcha, alterações da concentração, sendo que estas manifestações não podem ser explicadas pela identificação de outra doença”. É importante que se compreenda que “o surgimento da síndrome pós-covid não está diretamente relacionado com a gravidade da doença covid-19, isto é, doentes com manifestações de doença ligeira podem ter esta síndrome”, esclarece.

Considera-se que “a síndrome pós-covid é aguda quando persiste três semanas depois do diagnóstico e crónica quando persiste após 12 semanas”. “Mesmo após a infeção aguda podemos ter uma doença que ainda não sabemos quando termina”, avisa a especialista, que refere que “presentemente temos centros e consultas direcionadas para o estudo e acompanhamento destes doentes.”

 

O que devemos todos fazer?

Questionada sobre o que deve cada um fazer para ajudar a evitar a propagação da pandemia, a especialista de Medicina Geral e Familiar deixa claro que “neste momento, e de imediato, a melhor forma de evitar o contágio é recusar qualquer tipo de deslocação que não seja imprescindível, inadiável e essencial para a vida, assim como não fazer visitas sociais a familiares nem amigos”. “Temos de cumprir as regras instituídas e de forma correta, por exemplo, não é suficiente dizer que se usa máscara, é preciso saber colocá-la corretamente, cumprir as recomendações de substituição de acordo com o tempo de uso, humidade da mesma ou quando há marcas visíveis de sujidade”, sublinha.

A médica admite que se vê “uma luz ao fundo do túnel”, referindo-se à vacina, mas lembra que “enquanto grande parte da população não estiver vacinada, não teremos imunidade de grupo, pelo que não podemos baixar a guarda”. “Mesmo a população que já realizou as duas doses de vacina tem de manter todos os cuidados de etiqueta respiratória e distanciamento social”, avisa.

 

 

 

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