HPV: o vírus que não afeta só as mulheres

HPV: o vírus que não afeta só as mulheres

O Vírus do Papiloma Humano, conhecido pela sigla inglesa HPV, não afeta apenas mulheres e é considerado o carcinogéneo mais importante depois do tabaco. A prevenção pode e deve começar na puberdade.


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Começou por ser uma preocupação para as mulheres, por ser a principal causa do desenvolvimento do cancro do colo útero. Mas sabia que o Vírus do Papiloma Humano, conhecido pela sigla inglesa HPV, está ligado ao aparecimento de lesões malignas no ânus, pénis e cavidade oral? 

João Gíria, cirurgião habituado a trabalhar com estes casos, ajuda a perceber os sinais de alerta e as abordagens hoje disponíveis. Para o especialista do Hospital CUF Infante Santo, em Lisboa, é compreensível que até há pouco tempo se considerasse que esta infeção era exclusiva do género feminino: as mulheres têm um rastreio sustentado através do conhecido "Teste de Papanicolau", a citologia cervical. Mas a informação e sensibilização têm feito o seu caminho, acredita o médico. E a boa notícia é que, também para os homens, existem hoje formas de prevenção e tratamentos que podem evitar que as lesões causadas pelo vírus evoluam para doença oncológica.

“Hoje é do conhecimento geral que o género masculino também pode desenvolver a doença, para além de ser portador e, como tal, ser um reservatório transmissor”, diz o médico, sublinhando porém, que ainda existem algumas barreiras sociais ao diagnóstico. “A associação frequente da presença de HPV com outro tipo de doenças, como o HIV, estabelece algum tipo de confusão, dada a semelhança de ambas as siglas e devido ao facto de haver algum estigma ainda associado a ambas”. Falamos de duas doenças sexualmente transmissíveis, mas o Vírus do Papiloma Humano está a associado a vários quadros clínicos, de problemas do foro dermatológico a cancro. O contágio ocorre pelo contacto íntimo de pele com pele, ou de pele com mucosa no sexo oral, vaginal ou anal e não através do contacto com sangue, sémen e fluidos vaginais contaminados como acontece no HIV.

Do contágio à consulta: a importância do diagnóstico precoce

Outra particularidade do HPV prende-se com o tempo de incubação, que pode ser de um a dois meses, e também com o facto de, em algumas pessoas, o vírus poder ser eliminado naturalmente. Quando tal não acontece, os primeiros sinais, no caso dos homens que não passam por um rastreio regular como as mulheres, são geralmente pequenas verrugas em redor do orifício anal, explica João Gíria. Na fase seguinte pode acontecer que as mesmas verrugas existam já dentro da cavidade ano-retal. 

Estes são os sinais mais comuns da infeção e raramente são lesões malignas nesta fase. Daí a importância de os identificar o mais cedo possível, alerta o médico. “O vírus pode estar anos na região afetada sem manifestações de doença. Pode, depois, desenvolver pequenas lesões que podem desaparecer espontaneamente, no prazo de seis a 12 meses. Mas muitas vezes as lesões progridem e, por isso, todas devem ser tratadas. Porque não é possível saber quais são as que vão ou não progredir.” 

A progressão para a malignidade é lenta. “Pode demorar anos e depende do tipo de vírus responsável pela lesão. Estão descritos mais de 100 tipos destes vírus e a maioria não tem potencial de malignidade”, esclarece o cirurgião. Na realidade, os tipos de HPV que suscitam maior preocupação são mesmo uma minoria. “Os tipos de HPV são conhecidos por números”, esclarece João Gíria. “Os tipos 16 e 18 são os responsáveis por 70% dos casos de cancro do colo do útero e por 90% dos casos de cancro anal”. Se no caso do cancro do colo do útero o HPV é a grande causa, tanto nos tumores anais, orais ou do pénis há outros fatores de risco, mas o estudo da lesão permite identificar se o vírus desencadeou a doença.

Por onde começar?

Se só nos últimos anos se quebrou o mito de esta ser uma doença de mulheres e os homens já começam a ter mais informação, os protocolos clínicos para o sexo masculino ainda não estão tão consolidados como para o sexo feminino, que, tanto na especialidades de Ginecologia como na Medicina Geral e Familiar, têm o HPV como tema de consulta e de rastreio populacional. 

Apesar de não haver uma orientação de rastreio para o sexo masculino, os comportamentos sexuais de risco podem  motivar consultas de proctologia para observação e eventuais tratamentos, com o aconselhamento adequado para cada doente, recomenda João Gíria.

Já em termos de prevenção, a abordagem central será idêntica à das mulheres, que antes do início da adolescência podem e devem fazer a vacina que previne o contágio com HPV. Embora atualmente o Programa Nacional de Vacinação só abranja a vacinação das raparigas, João Gíria é peremptório: “Hoje em dia, a sugestão adequada será vacinar ambos os sexos antes do início da vida sexual, ou seja, não tanto na adolescência, mas antes, na puberdade, entre os 10 e os 12 anos.” E o objetivo não é apenas evitar problemas futuros, mas também prevenir que se tornem agentes transmissores. “No caso de a vacina não ter sido feita, há pelo menos um estudo que sugere haver algum benefício até aos 26 anos de idade”, acrescenta o médico.

Os sinais da mudança de paradigma já começam a ser visíveis. O Reino Unido anunciou este verão que, a partir de 2019, vai passar a oferecer a vacina do HPV a rapazes de 12 e 13 anos. Atualmente o programa de vacinação britânico abrange apenas raparigas entre os 12 e os 18 anos e homens que têm sexo com homens. Outros países como EUA e Austrália já recomendam a vacinação universal, o que no futuro deverá ser regra. Em Portugal a vacinação das raparigas aos 13 anos de idade foi assumida pelo Estado em 2008. No ano passado, a primeira dose foi antecipada para os 10 anos de idade, dado ser mais eficaz garantir a toma antes do início da vida sexual. A Sociedade Portuguesa de Pediatria, que anualmente emite parecer sobre as vacinas extra plano, recomenda atualmente a administração da vacina nonavalentea título individual, aos adolescentes do género masculino como forma de prevenir as lesões associadas ao HPV.

Tratamentos para o HPV

Quanto aos tratamentos disponíveis perante uma lesão, inicialmente do foro dermatológico, o cirurgião sublinha que há várias abordagens a considerar em consulta, tendo em conta as vantagens e inconvenientes. Há soluções que passam pela aplicação de medicamentos por via tópica pelo próprio doente e outros que exigem a aplicação por parte de um médico, com anestesia local. Algumas manifestações requerem uma cirurgia mais complexa, com anestesia geral. Certo é que, cada vez mais, as implicações desta infeção podem exigir um acompanhamento e uma atenção multidisciplinar, com a intervenção de médicos das áreas da Ginecologia, da Proctologia, da Urologia, da Dermatologia ou da Otorrinolaringologia.

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